Análise

Os três anos que separam um e-commerce sólido do que estaciona.

Em uma década dentro de operações digitais no Brasil, observei o mesmo ponto-cego se repetir. A maior parte das marcas estaciona entre o segundo e o terceiro ano, quase sempre pelo mesmo motivo de hierarquia interna, não por falta de técnica ou de orçamento.

By Editoria Domina

SEGUNDA-FEIRA · 11 de maio de 2026 · 12 min de leitura

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A história se repete com uma frequência que deixou de ser coincidência. A marca lança o e-commerce próprio, cresce rápido nos primeiros doze meses na base do entusiasmo, replica esse desempenho com algum custo a mais no segundo ano, e, então, no terceiro, encosta numa parede invisível. A receita estaciona, a operação começa a sangrar dinheiro em pontos que ninguém estava medindo, e a primeira reação institucional é quase sempre a mesma: aumentar o investimento em mídia paga.

Em uma década acompanhando esse padrão dentro de operações reais, em marcas de tamanhos muito diferentes, posso afirmar com algum grau de segurança que o problema raramente é de mídia. O problema é de hierarquia interna.

A marca trata o canal digital como anexo da operação institucional. E o anexo, por definição, tem prioridade menor, orçamento menor, time menor, decisão menor.

O canal próprio nasce com energia de projeto. Tem patrocinador interno, atenção dos diretores, urgência. Ganha rapidamente porque está sendo cuidado. No segundo ano, vira “operação normal”, e é aí que o cuidado começa a degradar. As decisões sobre catálogo passam a ser tomadas pelo time de loja física. A prioridade de marketing volta pra campanhas institucionais. O time de e-commerce começa a perder seniores pra outras frentes da empresa.

No terceiro ano, o canal já está rodando com inércia institucional. Continua existindo, continua vendendo, mas perdeu o que o fazia crescer. E ninguém percebe porque, do ponto de vista do P&L, o canal “ainda é lucrativo”, só não está mais escalando.

A saída, quando acontece, raramente é mais investimento. É virada de hierarquia. A marca redescobre que o e-commerce é a vitrine principal, onde a maior parte dos clientes novos passa antes de qualquer outra coisa, e reorganiza a operação interna em volta dessa decisão. Catálogo passa a ser pensado primeiro pro digital. Marca passa a ser construída com cabeça de canal próprio. Time de loja física começa a operar em apoio ao digital, não o contrário.

É uma virada cultural antes de ser uma virada técnica. E é por isso que a maior parte das marcas não faz, porque exige uma decisão que vem de cima, não de fora. Consultoria pontual não resolve, agência terceirizada não resolve, dashboard novo não resolve. O que resolve é a marca decidir reorganizar a operação interna em volta da nova hierarquia.

Quem faz isso, sai do terceiro ano numa curva diferente. Quem não faz, estaciona indefinidamente, operando, sem crescer, até alguém de fora resolver fazer pela marca o que ela mesma deveria ter feito.

A virada do terceiro ano é o ponto da curva mais importante do e-commerce brasileiro. E é também o menos discutido.

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